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Notícia 13/07/2026
A febre da inteligência artificial que está encarecendo casas e empurrando famílias para fora de São Francisco

A febre da inteligência artificial que está encarecendo casas e empurrando famílias para fora de São Francisco

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Em uma rua arborizada do Duboce Triangle, um dos bairros mais valorizados de São Francisco, um apartamento de três dormitórios recém-reformado chamava atenção não apenas pelo preço — quase US$ 3 milhões, algo em torno de R$ 15 milhões — mas por uma condição de pagamento no mínimo inusitada: o vendedor estava disposto a aceitar ações das empresas de inteligência artificial OpenAI ou Anthropic no lugar de dinheiro vivo. A cena, que soaria absurda em quase qualquer outro lugar do mundo, resume o momento peculiar que a cidade californiana atravessa.

São Francisco tornou-se o epicentro global da revolução da inteligência artificial, e o dinheiro que jorra desse setor está transformando radicalmente o mercado imobiliário local. Sedes de gigantes como OpenAI e Anthropic atraíram para a região uma legião de profissionais altamente remunerados — e o efeito colateral já é sentido por quem tenta comprar ou alugar um imóvel na cidade.

A cidade mais cara dos Estados Unidos, de novo

Em março de 2026, São Francisco reconquistou o título de cidade mais cara para compradores de imóveis nos Estados Unidos, ultrapassando a vizinha San Jose, tradicional coração do Vale do Silício, a cerca de 80 quilômetros ao sul. Os números que sustentam essa retomada são impressionantes.

Segundo dados da consultoria imobiliária Redfin, o preço médio das casas na cidade subiu 19% em março na comparação anual, mantendo a escalada com altas de 14,5% em abril e 14,1% em maio. Em maio de 2026, o preço médio de venda atingiu o recorde histórico de US$ 1,76 milhão. Para efeito de comparação, a média nacional americana gira em torno de US$ 400 mil, com valorização de apenas 1,4% em março e 2% nos meses seguintes. A distância entre São Francisco e o resto do país nunca foi tão grande.

Salários e bônus que impressionam até o Vale do Silício

A explicação para o fenômeno, na opinião de praticamente todos os moradores e especialistas, é uma só: o dinheiro da inteligência artificial. Os salários e bônus de contratação pagos aos principais talentos do setor alcançam patamares extraordinários, mesmo para os padrões já elevados da tecnologia californiana.

Mas o verdadeiro combustível do mercado são as opções de ações. Em vendas limitadas de participação, funcionários dessas empresas conseguiram transformar papel em fortuna. Em outubro passado, mais de 600 funcionários atuais e antigos da OpenAI venderam ações no valor total de US$ 6,6 bilhões — uma média de US$ 11 milhões por pessoa. Na Anthropic, criadora do assistente Claude, empregados também foram autorizados a vender participações que somaram cerca de US$ 6 bilhões.

E o cenário promete se intensificar. Com ambas as empresas se preparando para abrir capital em bolsa (os chamados IPOs) ainda neste ano ou no próximo, uma nova leva de funcionários multimilionários deve surgir — o que faz muitos apostarem que os imóveis da cidade vão se valorizar ainda mais.

Guerras de lances e compras à vista

Quem acompanha o mercado de perto descreve uma situação fora de controle. Matthew Goulden, corretor com mais de duas décadas de experiência em São Francisco, resume o momento em uma palavra: "loucura". Ele conta que começou a notar um aumento expressivo de compradores — muitos vindos do mundo da IA — no fim do ano passado.

Segundo o corretor, a alta não se restringe aos imóveis de luxo. Ela se espalha por todos os segmentos do mercado, de casas para uma única família a apartamentos de um quarto, sendo mais intensa nos bairros desejáveis, mas perceptível em praticamente toda a cidade. As chamadas "guerras de lances", em que os interessados elevam progressivamente as ofertas, tornaram-se rotina, muitas vezes empurrando o valor final para milhões acima do preço pedido. As casas, acrescenta ele, estão sendo vendidas mais rápido do que nunca, e as compras à vista aumentam de forma notável, sobretudo no topo do mercado.

Oferta limitada, demanda explosiva

Danielle Lazier, outra corretora experiente da cidade, oferece uma leitura complementar. Ela lembra que São Francisco tem uma tradição de anunciar imóveis abaixo do valor de mercado justamente para provocar o efeito de leilão que hoje domina as negociações.

A isso soma-se um problema estrutural: a oferta de moradias é cronicamente limitada. São Francisco é uma cidade geograficamente pequena, com alta proporção de inquilinos e um histórico de dificuldade para construir novos empreendimentos — ainda que a atual gestão municipal, voltada ao crescimento e à recuperação, tente reverter esse quadro. Quando uma demanda aquecida por dinheiro de IA encontra uma oferta engessada, o resultado é uma pressão de preços quase inevitável.

Nem todo mundo enxerga uma bolha eterna

Apesar do frenesi, há vozes mais cautelosas. Enrico Moretti, professor de economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e morador da cidade, avalia que o boom da IA ainda está no começo, mas aponta forças que podem conter o avanço. A população e o nível de emprego da cidade, embora crescentes, seguem abaixo dos patamares anteriores à pandemia.

Além disso, grandes empresas de tecnologia, como a Meta, vêm anunciando demissões em massa. E, à medida que a indústria de IA amadurece — deixando de ser um setor de inovação acelerada para se tornar um conjunto de empresas consolidadas —, é provável que passe a demandar trabalhadores menos especializados, com menos poder de barganha salarial. Moretti também ressalta que a maior parte da riqueza gerada pelos futuros IPOs deve ir para investidores, e não para funcionários, e que essas empresas têm operações espalhadas por diferentes partes do mundo.

Duas famílias, dois destinos

Por trás dos números, há histórias humanas que ilustram o custo social dessa transformação. Duas famílias de São Francisco, ambas com filhos em idade escolar, precisavam de mais espaço e conseguiram comprar casas recentemente — mas só uma permaneceu na cidade.

A que ficou tinha um dos pais empregado na OpenAI. Ao vender ações da empresa em outubro, a família reuniu o dinheiro necessário para comprar, à vista, um imóvel no mesmo bairro onde vivia de aluguel havia anos. O casal admite se sentir "em conflito e constrangido" por dever tudo isso ao dinheiro da inteligência artificial.

A outra família, sem renda ligada à tecnologia, não teve a mesma sorte. Precisou se mudar para uma cidade mais suburbana ao norte da Baía de São Francisco. A nova casa, comprada em parte com financiamento, tem piscina e mais terreno — uma vida diferente, à qual já se adaptaram, ainda que isso signifique um longo trajeto diário para o marido, que ocupa um cargo importante no governo municipal.

O retrato de uma nova desigualdade

No fim, o apartamento do Duboce Triangle que abriu esta história foi vendido por US$ 3,2 milhões — US$ 200 mil acima do preço pedido. O corretor não revelou se o negócio incluiu ações de empresas de IA.

O caso de São Francisco funciona como um alerta sobre os efeitos concentradores de riqueza que a economia da inteligência artificial pode produzir. Quando um punhado de empresas gera fortunas em ritmo acelerado, o poder de compra desses profissionais redesenha cidades inteiras — valorizando bairros, esvaziando a classe média local e criando uma nova linha divisória entre quem participa do boom tecnológico e quem apenas assiste, do lado de fora, ao preço da própria casa subir.

Fonte: Redfin / BBC

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