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Notícia 13/07/2026
Direito garantido, descanso ignorado: por que a maioria dos brasileiros não tira os 30 dias de férias

Direito garantido, descanso ignorado: por que a maioria dos brasileiros não tira os 30 dias de férias

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O Brasil figura entre os países mais generosos do planeta quando o assunto é descanso remunerado. Pela legislação trabalhista, todo empregado com carteira assinada tem direito a 30 dias de férias por ano — um patamar que coloca o país atrás apenas da França nesse quesito. Mesmo assim, um dado recente desafia essa fama: somente 1 a cada 3 trabalhadores brasileiros aproveita integralmente o período a que tem direito. Na prática, a maioria simplesmente abre mão de parte do descanso que a lei lhe garante.

O número vem de um levantamento conduzido pela Deel, plataforma global de recursos humanos e folha de pagamento, em parceria com a gestora Andreessen Horowitz. O estudo cruzou registros reais de solicitações de férias e licenças de mais de 1,5 milhão de trabalhadores em 150 países, o que dá ao retrato uma dimensão pouco comum em pesquisas do gênero. No recorte brasileiro, foram analisadas 993 solicitações, concentradas sobretudo em empresas de tecnologia, startups e organizações que adotam modelos remoto ou híbrido de trabalho.

Uma folga na lei, outra na prática

O contraste entre o que a lei oferece e o que o trabalhador de fato utiliza é o ponto mais revelador da pesquisa. Enquanto os 30 dias estão assegurados no papel, a mediana de dias efetivamente gozados é de apenas 20. Ou seja: mesmo com o direito garantido, o brasileiro típico deixa cerca de um terço das suas férias sem usar.

Quando o dado é comparado internacionalmente, a diferença de comportamento fica ainda mais clara. Os franceses, que lideram o ranking com uma média de 34 dias anuais, aproveitam 88% do período disponível. Já os brasileiros ficam em 72% — uma distância de 16 pontos percentuais em relação aos franceses, ainda que ambos os países ofereçam políticas de descanso consideradas amplas. A conclusão é incômoda: não basta a lei ser generosa; a cultura em torno do trabalho determina se o benefício será realmente usufruído.

Quando descansamos, descansamos de verdade

Se por um lado o brasileiro não zera o saldo de férias, por outro ele tem um traço peculiar: quando finalmente para, para por bastante tempo. Segundo a pesquisa, 62% dos trabalhadores brasileiros tiram pelo menos um período de 11 dias consecutivos ou mais ao longo do ano. É um dos índices mais altos de toda a amostra global.

Esse percentual supera inclusive o de países frequentemente citados como referência em equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Na Suécia, por exemplo, o índice é de 55%, e na Dinamarca, de 51%. Ou seja, o brasileiro parece preferir concentrar seu descanso em blocos longos — provavelmente as clássicas férias de fim de ano ou de meio de ano — em vez de distribuí-lo em pausas curtas ao longo dos meses.

Homens e mulheres descansam (e adoecem) de forma diferente

O levantamento também jogou luz sobre uma disparidade de gênero no uso de licenças médicas. No período analisado, 41% das trabalhadoras registraram ao menos um afastamento por motivo de saúde, contra apenas 21% dos homens — uma diferença de 20 pontos percentuais.

O grupo com maior frequência de afastamentos é o de mulheres entre 35 e 39 anos: 54% delas tiveram pelo menos uma licença médica registrada. Os dados não detalham as causas, mas especialistas costumam associar essa faixa a uma sobreposição de responsabilidades — carreira em ascensão, maternidade e a chamada dupla jornada — que pode ter impacto direto na saúde física e mental.

A cultura do "trabalhando ou afastado"

Outro comportamento que chama a atenção é o baixo uso de férias em formatos flexíveis, como o afastamento de meio período ou de meio dia. No Brasil, apenas 3% das solicitações analisadas correspondiam a esse tipo de folga. O número é muito inferior ao de mercados como a França (11,5%), o Reino Unido (11,3%) e a Alemanha (9,4%).

Isso reforça uma característica marcante da nossa cultura profissional: aqui ainda prevalece um modelo binário, em que o trabalhador ou está oficialmente trabalhando, ou está oficialmente de folga, sem muito espaço para os meios-termos que já se tornaram rotina em outros países. A flexibilização da jornada, tão discutida no discurso corporativo, ainda encontra resistência na prática cotidiana das empresas brasileiras.

Por que deixamos férias na mesa?

A pesquisa não aponta uma causa única, mas o conjunto dos dados permite algumas leituras. O medo de parecer menos comprometido, o acúmulo de tarefas que se avolumam durante a ausência, a insegurança em relação ao emprego e uma cultura que ainda associa produtividade a presença constante são fatores frequentemente citados por especialistas em saúde ocupacional para explicar por que tantos profissionais renunciam a parte do próprio descanso.

O problema é que essa renúncia cobra um preço. Estudos sobre saúde no trabalho são consistentes ao mostrar que pausas regulares reduzem o esgotamento, melhoram a concentração e diminuem o risco de doenças associadas ao estresse crônico. Abrir mão das férias, portanto, não é sinal de dedicação — é, muitas vezes, um caminho silencioso rumo ao burnout.

O que o trabalhador pode fazer

  • Planeje com antecedência: agendar as férias no início do ano ajuda a organizar entregas e reduz a sensação de que "não dá para parar".
  • Comunique-se com a equipe: distribuir responsabilidades e deixar pendências documentadas facilita a desconexão real durante o descanso.
  • Desligue de verdade: férias com o celular do trabalho ligado não descansam de fato. O objetivo é recuperar energia, não apenas mudar de ambiente.
  • Conheça seus direitos: as férias são um direito irrenunciável, e o empregado pode, no máximo, converter em dinheiro um terço do período (o chamado abono pecuniário) — nunca deixar de gozar o restante.

Um retrato da nossa relação com o trabalho

No fim das contas, os números da pesquisa contam menos sobre a legislação e mais sobre a cultura brasileira em torno do trabalho. Temos uma das leis mais protetivas do mundo, mas nem sempre a colocamos em prática. Enquanto países com tradição de bem-estar transformaram o descanso em hábito consolidado, o Brasil ainda equilibra generosidade legal com uma mentalidade que, muitas vezes, trata parar como sinônimo de fraqueza.

Mudar esse quadro depende tanto das empresas — que precisam incentivar e viabilizar o descanso — quanto dos próprios trabalhadores, que ganham em saúde e produtividade quando aprendem a usar integralmente aquilo que já é seu por direito. Afinal, de nada adianta ter uma das maiores concessões de férias do planeta se o descanso continua ficando na gaveta.

Fonte: Pesquisa Deel / Andreessen Horowitz

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