Você quer trabalhar, mas tem vergonha de falar com as pessoas: quando a timidez começa a atrapalhar a busca por emprego

Ilustração editorial sobre timidez e busca por emprego
Neste artigo

Tem gente que quer trabalhar, procura vagas, prepara o currículo e acompanha as oportunidades todos os dias. Mas existe uma parte da procura por emprego que não acontece na tela do celular ou do computador: conversar com alguém.

É aí que algumas pessoas travam.

Perguntar se uma empresa está contratando pode parecer constrangedor. Entregar um currículo pessoalmente pode dar vontade de voltar para casa. Responder a uma ligação de um recrutador pode provocar nervosismo. E, quando chega uma entrevista, o medo de não saber o que dizer pode ser maior do que a própria vontade de conseguir a vaga.

Isso não significa que uma pessoa tímida não tenha capacidade para trabalhar. Também não significa que ela precise se transformar em alguém extrovertido.

O problema começa em outro lugar: quando a vergonha passa a decidir quais oportunidades a pessoa vai tentar.

Ser quieto não é o mesmo que não saber se comunicar

Uma pessoa pode falar pouco, gostar de ambientes mais tranquilos e não ter vontade de participar de todas as conversas. Isso, por si só, não é um problema.

A própria American Psychological Association explica que a timidez pode envolver preocupação com a avaliação dos outros, desconforto em situações sociais e tendência à retração. Isso é diferente de simplesmente ter uma personalidade mais reservada.

A diferença é importante porque muita gente interpreta qualquer dificuldade para conversar como uma falha pessoal.

Não necessariamente é.

Uma pessoa pode ser reservada e, ainda assim, conseguir perguntar, responder, explicar seu trabalho e participar de uma entrevista. O ponto de atenção aparece quando o desconforto faz com que ela deixe de fazer coisas importantes.

Quando a vergonha começa a escolher as oportunidades

Currículo e telefone representam a hesitação diante de uma oportunidade profissional
Ilustração: ContratadoAKI

Imagine duas vagas.

Uma delas permite fazer todo o processo pela internet. A outra exige que o candidato converse rapidamente com alguém da empresa.

Escolher a primeira porque ela combina melhor com seu perfil não significa necessariamente que exista um problema.

Mas existe uma diferença quando a segunda vaga é descartada antes mesmo de ser considerada simplesmente porque surge o pensamento: “Eu não vou conseguir falar com ninguém”.

A timidez, nesse caso, deixou de ser apenas uma característica e começou a interferir na decisão profissional.

Isso pode acontecer de maneiras pequenas. A pessoa vê uma placa de contratação, mas não entra para perguntar. Encontra uma vaga interessante, mas não manda mensagem porque não sabe como começar. Recebe uma ligação e deixa tocar. É convidada para uma entrevista e pensa em desistir antes mesmo de participar.

Individualmente, cada uma dessas situações pode parecer pequena. Repetidas ao longo do tempo, porém, elas podem reduzir bastante o número de oportunidades às quais a pessoa realmente se apresenta.

Às vezes, o medo não é da conversa

Talvez seja do que pode acontecer durante a conversa.

“E se eu falar alguma coisa errada?”

“E se a pessoa achar que sou estranho?”

“E se perguntarem algo que eu não sei?”

“E se perceberem que estou nervoso?”

“E se eu ficar sem resposta?”

O problema de imaginar todas essas possibilidades é que uma conversa simples começa a parecer uma situação em que qualquer erro terá uma consequência enorme.

Uma pesquisa publicada no PubMed analisou ansiedade social e desempenho em entrevistas de emprego simuladas. O estudo acompanhou 130 estudantes em entrevistas experimentais e mostrou, entre outros resultados, que níveis maiores de ansiedade social estavam associados a maior resposta fisiológica de estresse, mas isso não significou automaticamente uma diferença de desempenho em todas as condições avaliadas.

Isso ajuda a separar duas coisas que costumam ser confundidas: sentir ansiedade e ser incapaz de realizar uma tarefa não são necessariamente a mesma coisa.

A pessoa pode estar nervosa e ainda assim conseguir responder.

Você não precisa perder a vergonha antes de procurar emprego

“É só perder a vergonha” parece um conselho simples porque transforma um problema complicado em uma decisão de vontade.

Mas não funciona dessa maneira.

A pessoa pode saber que precisa conversar e continuar sentindo desconforto quando chega o momento.

Por isso, talvez seja mais útil trocar uma meta impossível por uma meta concreta.

Em vez de pensar “preciso ficar confiante para conseguir procurar emprego”, pensar: “preciso conseguir fazer esta conversa mesmo estando nervoso”.

A diferença parece pequena, mas muda o que a pessoa espera de si mesma.

A American Psychological Association já tratou dessa questão ao abordar o manejo da timidez. Em uma entrevista com o psicólogo Bernardo Carducci, a entidade destaca que o objetivo não precisa ser simplesmente eliminar a timidez, mas aprender a lidar com ela e diminuir a pressão colocada sobre cada interação.

Uma conversa profissional não precisa ser brilhante

Quem tem vergonha de conversar pode cometer um erro antes mesmo de abrir a boca: tentar preparar a conversa inteira.

Quer imaginar a pergunta seguinte, a resposta seguinte e até a forma como a conversa vai terminar.

Isso aumenta a pressão porque uma conversa não depende de uma pessoa só.

Na procura por emprego, é mais útil saber por que aquela conversa está acontecendo.

Se você quer saber se uma empresa está contratando, esse é o objetivo.

Se quer entregar um currículo, esse é o objetivo.

Se quer confirmar uma informação sobre uma vaga, esse é o objetivo.

Se está em uma entrevista, precisa explicar sua experiência e responder ao que está sendo perguntado.

Você não precisa transformar nenhuma dessas situações em uma apresentação perfeita sobre sua própria vida.

O primeiro passo pode ser menor do que a entrevista

Se conversar com desconhecidos provoca muito desconforto, começar justamente pela situação que mais assusta pode ser uma forma ruim de praticar.

Uma conversa profissional não precisa ser o primeiro exercício.

Pode começar com situações pequenas: perguntar uma informação, fazer uma ligação simples, pedir ajuda em um estabelecimento ou iniciar uma conversa curta com alguém que você não conhece bem.

O objetivo não é transformar a vida cotidiana em uma sequência de testes.

É dar à pessoa oportunidades de perceber que uma conversa pode ser curta, imperfeita e ainda assim terminar normalmente.

Essa ideia aparece também nas orientações apresentadas pela APA em seu material sobre como lidar com a timidez, que aborda a prática de interações breves como uma maneira de reduzir a pressão colocada sobre cada conversa.

O currículo não conversa por você

Um currículo pode mostrar experiências, cursos e habilidades. Mas chega um momento em que alguém vai querer saber quem está por trás daquele documento.

É aí que a pessoa tímida pode sentir que todo o esforço feito para preparar o currículo não foi suficiente.

Não porque o currículo esteja ruim, mas porque agora é necessário explicar algumas coisas com as próprias palavras.

Não é preciso decorar uma apresentação longa.

Uma resposta simples pode explicar qual área você procura, resumir sua experiência e dizer que tipo de oportunidade está buscando.

O mais importante é conseguir transmitir a informação.

Quem fala pouco não precisa começar a falar muito. Precisa apenas conseguir dizer aquilo que a situação exige.

Na entrevista, ficar nervoso não apaga o que você sabe

Cadeiras e sombras representam o momento de uma entrevista de emprego
Ilustração: ContratadoAKI

Existe uma situação particularmente frustrante: a pessoa conhece o trabalho, sabe explicar suas experiências quando está tranquila, mas durante a entrevista parece esquecer tudo.

Ela demora para responder. Perde uma palavra. Fica preocupada com a própria voz. Começa a pensar na expressão do entrevistador enquanto ainda está tentando responder à pergunta.

Isso pode criar um ciclo ruim: quanto mais a pessoa observa o próprio nervosismo, menos atenção sobra para a conversa.

Pesquisas sobre ansiedade social e entrevistas já investigaram justamente essa relação entre ansiedade, percepção de si e desempenho. Um estudo publicado no PubMed encontrou, em uma situação de entrevista simulada, diferenças na forma como pessoas com níveis maiores de ansiedade social reagiam ao feedback recebido, mas os resultados não permitem transformar nervosismo em uma medida simples de competência profissional.

Esse detalhe é importante porque muita gente interpreta qualquer sinal de ansiedade como prova de que “foi mal”.

Não necessariamente.

Uma pausa antes de responder continua sendo uma pausa. Uma voz trêmula continua sendo uma voz trêmula. Nenhuma dessas coisas, isoladamente, conta toda a história sobre o que a pessoa sabe fazer.

Você pode precisar de alguns segundos

Uma entrevista não é uma prova de velocidade.

Se uma pergunta exigir raciocínio, é possível parar por alguns segundos antes de responder.

Se você não entender a pergunta, pode pedir que ela seja repetida.

Se precisar organizar uma experiência antes de explicá-la, pode pensar por um instante.

Isso pode parecer óbvio para quem não sofre com esse tipo de dificuldade. Para quem tem vergonha, porém, existe uma pressão para preencher imediatamente qualquer silêncio.

O silêncio de alguns segundos pode parecer muito maior para quem está nervoso do que realmente é para quem está ouvindo.

Depois da contratação, a conversa continua

Mesa de trabalho representa comunicação e colaboração depois da contratação
Ilustração: ContratadoAKI

Talvez essa seja uma das partes mais importantes desse assunto.

Conseguir a vaga resolve uma etapa, mas não elimina a necessidade de comunicação.

Depois da contratação, será necessário perguntar quando uma orientação não estiver clara. Avisar quando surgir um problema. Confirmar uma informação. Pedir ajuda. Conversar com colegas. Em algumas funções, falar com clientes ou fornecedores também fará parte da rotina.

Por isso, o objetivo não deveria ser apenas “conseguir passar pela entrevista”.

É desenvolver uma comunicação suficiente para realizar aquilo que o trabalho exige.

Uma pessoa não precisa se tornar a mais falante da equipe para fazer isso.

Ela precisa conseguir abrir a boca quando ficar em silêncio começaria a atrapalhar o próprio trabalho.

Evitar uma profissão só por causa das pessoas pode custar caro

Quem tem vergonha de conversar pode começar a eliminar profissões inteiras da própria lista.

“Essa não serve porque tem atendimento.”

“Essa também não porque preciso conversar com equipe.”

“Essa exige entrevista.”

“Essa exige contato com público.”

Algumas dessas escolhas podem fazer sentido. Existem trabalhos que realmente combinam mais com determinados perfis.

O problema é quando a pessoa deixa de considerar uma área não porque descobriu que não gosta daquele tipo de trabalho, mas porque decidiu que não conseguirá lidar com as interações necessárias.

Um estudo com 265 adultos desempregados que buscavam serviços de reabilitação profissional encontrou associação entre ansiedade social e determinadas barreiras relacionadas a emprego, incluindo dificuldades percebidas em experiência e habilidades profissionais. Os pesquisadores também observaram menor interesse por ocupações de caráter mais social entre os participantes que apresentaram maior ansiedade social. O trabalho está disponível no PubMed Central.

O estudo não significa que toda pessoa tímida deva procurar trabalhos que envolvam muitas pessoas.

Mostra outra coisa: a ansiedade social pode influenciar não apenas a maneira como alguém participa de uma oportunidade, mas também quais oportunidades essa pessoa passa a considerar possíveis para si.

Networking não precisa significar conversar com todo mundo

Outra palavra que pode assustar quem é tímido é networking.

Existe uma imagem de eventos cheios, pessoas se apresentando, trocando contatos e tentando descobrir quem pode ajudar na carreira.

Mas uma relação profissional não precisa começar dessa maneira.

Pode começar com uma única conversa.

Pode ser perguntar para alguém que trabalha em determinada área como é a rotina. Pode ser conversar com um antigo colega. Pode ser pedir uma indicação de onde procurar vagas. Pode ser manter contato com alguém depois de uma experiência profissional.

Não existe uma quantidade obrigatória de pessoas que você precisa conhecer para construir uma carreira.

Para alguém tímido, inclusive, pensar em uma conversa útil pode ser muito mais realista do que pensar em “fazer networking”.

O que vale a pena treinar não é “ser comunicativo”

“Preciso melhorar minha comunicação” é uma meta grande demais.

Melhor é descobrir em qual situação a dificuldade aparece.

Você trava quando precisa iniciar uma conversa?

Quando precisa falar sobre si?

Quando alguém faz uma pergunta inesperada?

Quando precisa ligar para uma empresa?

Quando precisa pedir ajuda?

Quando precisa falar diante de várias pessoas?

Cada situação é diferente.

Se a dificuldade está em iniciar uma conversa, pratique inícios de conversa. Se está em explicar sua experiência, organize previamente os principais pontos da sua trajetória. Se o problema aparece quando não sabe uma resposta, pratique dizer com tranquilidade que precisa pensar ou que não conhece determinada informação.

Assim, “sou ruim para conversar” deixa de ser uma característica aparentemente permanente e se transforma em uma série de situações concretas que podem ser trabalhadas.

Nem toda timidez precisa virar um problema de saúde

Também é importante não transformar qualquer vergonha em diagnóstico.

Sentir desconforto para conversar com desconhecidos é diferente de apresentar um medo intenso e persistente que interfere em diversas áreas da vida.

A American Psychological Association observa que a timidez e a ansiedade social podem variar em intensidade, e que, quando o sofrimento começa a criar barreiras importantes para a vida da pessoa, a ajuda profissional pode ser considerada.

Isso é especialmente relevante quando a pessoa começa a evitar repetidamente entrevistas, trabalho, estudos ou outras situações importantes por causa do medo de interação.

Nesse cenário, talvez o problema já não seja apenas uma questão de melhorar a candidatura ou praticar uma apresentação. Pode ser necessário olhar para a dificuldade com um profissional de saúde mental.

Pessoa caminhando por círculos que se abrem, representando o avanço apesar da timidez
Ilustração: ContratadoAKI

A vergonha pode continuar existindo

Talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Você pode praticar, melhorar e ainda sentir vergonha.

Pode continuar nervoso antes de uma entrevista.

Pode continuar preferindo conversas curtas.

Pode continuar precisando de alguns segundos para organizar uma resposta.

Isso não significa que o esforço não funcionou.

O objetivo não precisa ser transformar uma pessoa tímida em alguém que gosta de conversar com todo mundo.

Pode ser simplesmente fazer com que ela consiga agir quando a situação profissional exigir.

O trabalho começa antes da contratação

Procurar emprego não é apenas encontrar uma vaga e enviar um currículo.

Existe uma série de pequenas interações no caminho: perguntar, responder, confirmar, explicar, ouvir e, às vezes, simplesmente dizer “tenho interesse nessa oportunidade”.

Para quem sente vergonha, essas pequenas situações podem parecer maiores do que são.

Mas elas também podem ser divididas em partes menores.

Uma conversa não precisa ser perfeita. Uma entrevista não precisa ser sem nervosismo. Uma apresentação não precisa transformar você em outra pessoa.

O que importa é não deixar que o medo de conversar elimine oportunidades antes que você tenha a chance de descobrir se aquela vaga realmente poderia ser sua.

Você não precisa deixar de ser tímido para trabalhar. Precisa apenas aprender a não deixar que a timidez decida, sozinha, até onde sua busca por trabalho pode chegar.