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O recrutador pede dois contatos de referência. Você abre a agenda e encontra alguns nomes: uma antiga supervisora, um colega com quem dividiu tarefas, um diretor que conheceu em reuniões e alguém que participou de um projeto importante com você.
Todos conheceram você no trabalho. Mas cada um viu uma parte diferente.
A supervisora percebeu sua evolução ao longo de meses. O colega esteve ao seu lado nas dificuldades da rotina. O diretor assistiu à apresentação de uma entrega, mas quase não participou da execução. Já a pessoa do projeto trabalhou intensamente com você durante algumas semanas.
Quem indicar?
Eu começaria por uma pergunta: o que cada pessoa consegue contar sobre o seu trabalho com base no que presenciou?
Quando a empresa solicita duas referências profissionais, essa reflexão ajuda a escolher contatos que tenham algo relevante a dizer. Também permite perceber se os relatos se complementam ou se ambos cobrem o mesmo pedaço da sua experiência.
Antes de escolher, entenda o pedido da empresa
“Envie duas referências” parece uma instrução completa. Ainda assim, talvez falte saber se a empresa exige ex-gestores, aceita colegas ou procura contatos de uma experiência específica.
Se houver dúvida, pergunte:
“Vocês precisam de referências de antigos gestores ou também aceitam profissionais que trabalharam diretamente comigo em projetos?”
A resposta define suas opções. Se forem exigidos dois antigos supervisores e você só tiver um disponível, explique a situação antes de completar a lista com um colega ou professor.
Confira também o que foi solicitado. Uma referência profissional é alguém que poderá falar sobre sua atuação. Uma carta de recomendação é um documento. Já uma indicação para uma vaga pode significar que alguém apresentou sua candidatura à empresa.
Segundo a Harvard Law School, pedir referências não equivale a solicitar cartas de recomendação. A instituição orienta que a lista inclua nome, cargo, informações de contato e a relação de cada pessoa com o candidato.
Esse último detalhe ajuda o recrutador a situar o relato. Supervisionar sua rotina durante dois anos oferece uma visão diferente de participar de uma entrega pontual.
O cargo da pessoa não conta toda a história
Talvez você imagine que indicar um diretor seja melhor do que fornecer o contato de uma supervisora. Antes de decidir, pense na conversa que ele teria com o recrutador.
Se perguntarem como você recebia orientações, organizava prioridades ou lidava com uma dificuldade recorrente, ele terá exemplos? Ou saberá apenas que determinada entrega foi bem recebida?
A supervisora talvez consiga explicar em quais tarefas você ganhou autonomia, como reagia às correções e que tipo de apoio ainda precisava.
De acordo com a Robert Half, antigos líderes, colegas e, quando aplicável, subordinados podem ser indicados. A consultoria destaca que a checagem busca informações de quem conviveu com o candidato no cotidiano profissional.
Eu usaria essa orientação para olhar além do cargo. O nome pode impressionar, mas é a convivência que permite descrever seu desempenho. Respeitadas as exigências da seleção, prefira quem tenha condições de sustentar o relato com situações concretas.
Faça um mapa do que cada referência observou

Antes de compartilhar contatos, organize suas possibilidades. Uma tabela simples ajuda a enxergar tanto a contribuição de cada pessoa quanto os limites do que ela sabe.
Considere este exemplo fictício:
| Possível referência | O que acompanhou diretamente | Limite dessa visão |
|---|---|---|
| Ex-supervisora | Organização da rotina, cumprimento de prazos, resposta a orientações e evolução. | Não participou de um projeto realizado depois da saída dela. |
| Colega de equipe | Divisão de tarefas, comunicação e tratamento de pendências. | Não era responsável pela avaliação formal do desempenho. |
| Diretor | Apresentação e aprovação de uma entrega. | Teve pouco contato com a execução cotidiana. |
| Líder de projeto | Planejamento, negociação de prioridades e acompanhamento de uma entrega conjunta. | Trabalhou com a candidata apenas durante aquele projeto. |
Para preencher sua própria tabela, responda:
- Em que contexto trabalhamos juntos?
- Durante quanto tempo e com que frequência?
- Quais atividades essa pessoa viu de perto?
- Que situação concreta ela poderia recordar?
- Quais experiências minhas ela não acompanhou?
Se vocês participaram de um projeto de dois meses, informe esse período ao recrutador, mesmo que você tenha permanecido três anos na empresa. Isso dá a dimensão correta da convivência.
Uma boa referência não precisa conhecer sua carreira inteira. Precisa ter condições de falar sobre a experiência que vocês compartilharam.
Duas referências podem acrescentar informações ou repetir a mesma visão
Imagine que dois antigos gestores tenham supervisionado você na mesma rotina, durante períodos parecidos. Ambos podem ser escolhas adequadas.
Agora considere outra combinação: uma gestora que conhece sua consistência no dia a dia e um líder de projeto que viu como você articulava tarefas entre equipes.
A segunda opção acrescenta uma experiência diferente. Se ela for importante para a vaga, pode ajudar o recrutador a compreender melhor sua atuação.
Nas orientações de contratação da Universidade da Califórnia em Berkeley, as perguntas às referências devem considerar as competências necessárias ao cargo. A universidade também recomenda levar em conta a fonte, pois a informação é limitada pela percepção de quem a fornece.
Minha proposta é aplicar esse raciocínio à escolha dos contatos: o que os dois relatos ajudam a esclarecer sobre sua capacidade de exercer a função?
Isso não exige buscar cargos diferentes apenas para variar a lista. Duas referências que conhecem profundamente o trabalho relevante para a oportunidade podem ser mais úteis do que uma combinação diversificada com alguém que mal conviveu com você.
A mesma candidata pode escolher contatos diferentes para vagas diferentes

Vamos acompanhar Mariana, uma personagem fictícia. Ela trabalhou em rotinas administrativas e participou de um projeto para reorganizar o atendimento entre setores. Seus quatro contatos possíveis são os da tabela anterior.
Em uma seleção, a vaga envolve controle de solicitações, atualização de registros e acompanhamento de prazos. A empresa aceita uma ex-gestora e um colega.
A antiga supervisora e o colega de equipe formam uma combinação coerente:
- A supervisora conhece a qualidade das entregas e a evolução de Mariana.
- O colega viu como ela organizava pendências e compartilhava informações na rotina.
Em outra seleção, a função exige acompanhar entregas entre áreas e negociar prioridades. O processo também aceita referências de projetos.
Mariana pode escolher a supervisora e o líder do projeto. A primeira conhece seu desempenho ao longo do tempo. O segundo tem exemplos de uma experiência próxima das responsabilidades da nova vaga.
O diretor continua sendo uma possibilidade, mas seu cargo não elimina a limitação de ter visto principalmente a apresentação final. A escolha muda conforme o que precisa ser esclarecido em cada candidatura.
Mariana deve, ainda, descrever corretamente essas relações. O líder do projeto não era necessariamente seu chefe, assim como participar do acompanhamento de entregas não significa ter coordenado uma equipe.
É o mesmo cuidado que recomendo ao mostrar contribuições no currículo sem inventar resultados: a descrição precisa corresponder ao que você fez, inclusive quando outra pessoa for consultada.
Nem sempre a referência mais recente pode ser contatada
Seu chefe atual talvez conheça muito bem seu trabalho, mas ainda não saiba que você está procurando emprego. Antes de fornecer o contato, converse com o recrutador sobre a confidencialidade da busca.
Berkeley orienta quem contrata a pedir permissão ao candidato antes de falar com o supervisor atual. Essa recomendação faz parte dos procedimentos da universidade; não é uma regra para toda seleção brasileira. Eu a considero um bom ponto de partida para discutir quando esse contato poderá acontecer.
“Minha busca ainda é confidencial. Neste momento, posso fornecer uma ex-supervisora e um profissional que acompanhou minhas entregas. Essas referências atendem ao que vocês precisam?”
Se a empresa exigir o gestor atual, pergunte em qual etapa pretende procurá-lo e se é possível ajustar o momento. A alternativa pode não ser aceita, mas você terá esclarecido a restrição antes de compartilhar os dados.
Quando a pessoa só pode confirmar o vínculo
Outra limitação pode surgir: seu antigo gestor informa que só consegue confirmar cargo e período de trabalho, ou que a empresa centraliza esse atendimento no RH.
Isso, por si só, não revela uma avaliação negativa sobre você. Apenas indica que aquele contato talvez não possa fornecer detalhes sobre seu desempenho.
Explique a situação ao recrutador e pergunte se a confirmação atende ao pedido ou se será necessário apresentar outra referência. Respeite os limites informados por quem você procurou.
No primeiro emprego, deixe claro de onde vem a referência
Quem busca o primeiro emprego pode ter pessoas que conhecem sua atuação em projetos acadêmicos, estágio, pesquisa ou voluntariado.
Se a seleção aceitar esses contatos, observe a proximidade da convivência. Um professor que orientou um projeto pode comentar sua participação, a resposta às orientações e o cumprimento de tarefas. Quem apenas ministrou aulas em uma turma grande talvez tenha menos elementos para falar sobre você.
Pergunte ao recrutador:
“Ainda não tenho experiência de emprego. Vocês aceitam uma referência acadêmica de alguém que acompanhou um projeto meu?”
Se a resposta for positiva, identifique a relação como ela aconteceu. “Orientadora de projeto acadêmico” explica o contexto; apresentá-la como “gestora” mudaria o sentido da experiência.
Caso tenha apenas uma referência adequada, diga isso e confirme quais alternativas são aceitas para o segundo contato. Incluir alguém só para completar a quantidade pode trazer problemas quando essa pessoa for procurada e tiver pouco a contar.
Peça autorização antes de compartilhar o contato

Depois de escolher, confirme se a pessoa aceita participar e qual canal prefere. Pedir autorização antes de fornecer os nomes também está entre as recomendações de Harvard.
Eu aproveitaria essa conversa para saber se ela tem disponibilidade e se sente à vontade para falar sobre a experiência de vocês. Você pode escrever:
“Olá, Renata. Estou participando de uma seleção para uma função administrativa e pediram referências profissionais. Pensei em você porque acompanhou minha rotina de controle de solicitações. Você se sente à vontade para ser minha referência? Se aceitar, posso enviar um resumo da vaga e confirmar qual contato prefere que eu compartilhe.”
Se faz tempo que vocês não conversam, lembre o período e o setor em que trabalharam juntos. Espere a resposta antes de incluir o nome na lista.
Em caso de recusa, agradeça e procure outra possibilidade. Não tente concluir, apenas por essa resposta, o que a pessoa pensa sobre seu desempenho.
Dê contexto sem combinar um depoimento
Depois do aceite, ajude a referência a entender a oportunidade. A Universidade do Colorado em Boulder recomenda compartilhar o currículo atualizado e o anúncio da vaga. Esses materiais ajudam a identificar quais atividades e pontos fortes são relevantes para a candidatura.
Isso faz sentido: alguém pode conhecer bem seu trabalho anterior e ainda precisar entender a função que você está buscando agora.
Envie o que for necessário:
- O anúncio ou um resumo das responsabilidades da vaga.
- Seu currículo atualizado.
- Um lembrete do período e das atividades em que trabalharam juntos.
- O nome da empresa e a previsão de contato, se essas informações estiverem disponíveis.
Ao lembrar uma experiência, cuide da forma como a descreve. “A vaga envolve acompanhamento de prazos, atividade que você viu durante nosso projeto” oferece contexto. Já “diga que eu liderava todo o projeto” distorce o relato se essa responsabilidade não era sua.
Também evite enviar arquivos internos, dados de clientes ou documentos confidenciais para ajudar alguém a recordar uma entrega. Uma descrição das atividades pode ser suficiente.
Você pode facilitar a conversa, mas a referência deve falar a partir do que ela própria viu e lembra.
Entregue uma lista que explique a relação
Siga o formato solicitado pela empresa. Se o pedido for livre, organize cada contato com estas informações:
| Informação | O que registrar |
|---|---|
| Nome | Nome completo da pessoa. |
| Cargo e organização | Informações atuais, confirmadas com ela. |
| Relação com você | Ex-supervisora, colega de equipe, líder de projeto ou outro contexto verdadeiro. |
| Período compartilhado | Quando trabalharam juntos. |
| Contato autorizado | Telefone ou e-mail que ela permitiu fornecer. |
Diferencie o cargo atual da relação passada. Uma pessoa pode ser gerente hoje e ter sido sua supervisora em outra organização.
Por exemplo: “Minha supervisora no setor administrativo da Empresa Horizonte, entre março de 2022 e novembro de 2024”. Em um campo separado, informe o cargo e a organização atuais.
Antes de enviar, confira:
- Os contatos atendem às condições informadas pelo recrutador?
- Todos aceitaram participar?
- Os dados estão atualizados?
- As relações profissionais estão descritas corretamente?
- Há alguma restrição de contato que precisa ser comunicada?
Se alguém ficar indisponível durante o processo, avise e pergunte se pode substituí-lo. Nas próximas candidaturas, reveja a lista: tanto as responsabilidades da vaga quanto a disponibilidade das pessoas podem mudar.
Resumo: como escolher suas referências profissionais
Comece esclarecendo o pedido da empresa: quantos contatos são necessários, quais relações são aceitas e se há alguma exigência específica. Depois, compare suas opções pelo que cada pessoa conhece do seu trabalho, sem decidir apenas pelo cargo que ocupa.
Quando houver liberdade de escolha, procure referências relacionadas às responsabilidades da vaga. Duas perspectivas podem enriquecer o relato, desde que ambas venham de uma convivência real. Se os melhores contatos conhecerem a mesma rotina, não é preciso trocar um deles apenas para diversificar a lista.
Resolva as limitações antes de enviar os dados. Uma busca confidencial, a falta de antigos gestores disponíveis ou a procura pelo primeiro emprego pedem uma conversa sobre as alternativas aceitas pelo recrutador.
Com os nomes escolhidos, peça autorização, confirme os contatos e compartilhe informações sobre a oportunidade. Descreva corretamente o vínculo de cada pessoa com você e deixe que ela fale com suas próprias palavras.
Para mim, a melhor lista permite entender quem viu você trabalhar, em que contexto e o que pode contar sobre essa experiência. É essa clareza que eu procuraria ao escolher duas referências: pessoas que tenham algo concreto a acrescentar à candidatura e que possam falar sobre isso com segurança.