Consignado privado explode: R$ 100 bilhões em crédito e 10 milhões de trabalhadores com carteira assinada tomaram o empréstimo em 16 meses
Em pouco mais de um ano de vigência, o Crédito do Trabalhador, novo consignado privado para quem tem carteira assinada, saiu do zero e virou um dos mercados mais quentes do sistema financeiro brasileiro. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2026 mostram que o saldo dessa carteira já ultrapassa R$ 140 bilhões, um salto de R$ 100 bilhões desde março de 2025, quando as novas regras passaram a valer.
Os números são grandes o bastante para chamar atenção de quem nunca pensou em pegar um empréstimo consignado. São 23 milhões de contratos firmados com mais de 10 milhões de trabalhadores, segundo o próprio governo. Ou seja, aproximadamente 1 em cada 5 empregados formais do país já contratou pelo menos uma operação. E a corrida entre bancos e fintechs, que hoje somam 104 instituições ativas, empurra os juros para baixo mês após mês.
O que mudou com a nova lei do consignado
Antes da Medida Provisória 1.292/2025, convertida na Lei nº 15.179/2025, o consignado privado era pequeno e engessado. O trabalhador só conseguia contratar o empréstimo se a empresa dele tivesse assinado um convênio prévio com um banco específico. Se fosse demitido, o banco perdia o desconto em folha e o custo do crédito subia junto com o risco.
Com a nova regra, o convênio deixou de ser obrigatório. A operação passou a ser feita direto pelo aplicativo Carteira de Trabalho Digital, com dados vindos do eSocial em tempo real. Isso ampliou o mercado de menos de mil grandes empresas com convênio para os 47 milhões de trabalhadores com carteira assinada em todo o país.
Outra mudança essencial foi a inclusão do FGTS e da multa rescisória de 40% como garantias adicionais. Se o trabalhador for demitido, o saldo do Fundo de Garantia e a multa entram para quitar o empréstimo, reduzindo o risco do banco e permitindo taxas menores. Motoristas de aplicativo e entregadores também foram incluídos, desde que a plataforma em que trabalham tenha convênio com bancos.
Juros: quem cobra mais barato hoje
Segundo levantamento com dados do Banco Central de julho de 2026, a taxa média do consignado privado varia bastante entre as instituições. Os menores juros mensais registrados foram:
- Novo Banco Continental: 1,62% ao mês (21,21% ao ano);
- Cobuccio SCFI: 1,62% ao mês (21,29% ao ano);
- Banco Senff: 2,04% ao mês (27,49% ao ano);
- Banco Volkswagen: 2,05% ao mês (27,53% ao ano);
- Banco do Nordeste: 2,13% ao mês (28,71% ao ano).
Já entre os grandes bancos de varejo, as taxas médias ficam maiores: Santander cobra 2,81% ao mês, Bradesco 3,11%, Caixa 3,14%, Banco do Brasil 3,15% e Itaú 3,38%. Nas fintechs, o C6 aparece com 3,79%, o PicPay com 3,84% e a Neon com 3,98% ao mês. Vale lembrar que essas são médias da carteira, não uma oferta garantida ao cliente.
A média geral do sistema, informada pelo Ministério do Trabalho, gira em torno de 3,56% ao mês. Para comparação, o crédito pessoal comum, sem consignação, cobra taxas médias de 6,50% a 8,77% ao mês. É por isso que 60% dos contratos do novo consignado estão concentrados em trabalhadores que ganham até quatro salários mínimos: o custo do crédito ficou acessível para quem antes só conseguia cartão ou cheque especial.
Quem pode contratar
Podem pegar o empréstimo:
- Empregados regidos pela CLT com carteira assinada em qualquer empresa privada;
- Empregados domésticos com contrato registrado;
- Trabalhadores rurais com vínculo formal;
- Motoristas e entregadores de aplicativo, desde que a plataforma tenha convênio.
O limite de comprometimento é de até 35% do salário líquido para o pagamento das parcelas, o chamado teto da margem consignável. O prazo máximo é de 60 meses, dependendo da instituição financeira.
Passo a passo para contratar
- Abra o aplicativo Carteira de Trabalho Digital pelo celular. Se ainda não tem conta, faça o login com CPF e senha do Gov.br. É preciso ter conta nível prata ou ouro.
- Autorize o compartilhamento dos dados do eSocial. Sem essa autorização, os bancos não conseguem simular a oferta. O compartilhamento vale por 24 horas.
- Aguarde as propostas. Em até um dia útil, as instituições cadastradas enviam ofertas com valores, prazos, taxas e o Custo Efetivo Total (CET). Você pode comparar todas em uma única tela.
- Escolha a melhor e feche o contrato dentro do próprio app ou no canal do banco escolhido. A assinatura exige biometria facial, exigência do Decreto nº 12.564/2025 para proteger contra fraudes.
- Receba o dinheiro em conta. O crédito costuma cair no mesmo dia ou no dia útil seguinte, e o desconto começa na próxima folha de pagamento.
Vale a pena? Quando o consignado ajuda de verdade
Especialistas em finanças pessoais são unânimes em dizer que o consignado é uma ferramenta poderosa quando usado para trocar dívida cara por dívida barata. Sair do rotativo do cartão de crédito, que cobra em torno de 15% ao mês, ou do cheque especial, que passa dos 8% ao mês, e migrar para uma parcela de 2% a 3% ao mês pode devolver fôlego ao orçamento.
O problema é usar o crédito consignado como se fosse renda extra. Como o desconto é automático em folha, o trabalhador não sente o peso da parcela até o momento em que precisa lidar com uma emergência, uma demissão ou uma redução de jornada. E, com a garantia do FGTS, o saldo que serviria como colchão em caso de desemprego já foi comprometido.
Cuidados antes de assinar
Alguns pontos merecem atenção especial:
- Compare o CET, não só a taxa. O Custo Efetivo Total inclui juros, IOF, tarifas e seguros. Duas propostas com a mesma taxa nominal podem ter CET muito diferente.
- Preste atenção ao prazo. Um contrato de 60 meses paga parcela menor, mas o total pago no fim é muito maior por causa dos juros compostos. Sempre que possível, escolha o menor prazo que couber no orçamento.
- Confira o valor liberado, não só a parcela. Alguns bancos embutem seguro prestamista, taxa de abertura de crédito ou outras cobranças que reduzem o valor real que cai na conta.
- Desconfie de ligações e mensagens. Os bancos legítimos não pedem código do SMS por telefone nem cobram taxa antecipada para liberar o crédito. Qualquer contato assim é golpe.
- Guarde o contrato assinado. Depois de fechado, o contrato precisa estar disponível para consulta no aplicativo da instituição escolhida. É seu direito receber a cópia digital.
Portabilidade: como pagar menos em um contrato antigo
Quem já tem um consignado privado ativo pode trocar de banco desde 6 de junho de 2025. A portabilidade permite migrar o contrato para uma instituição com taxa menor, desde que a nova operação tenha juros inferiores à original. É um mecanismo simples que pode reduzir a parcela em 20% ou mais, dependendo do caso.
A solicitação é feita pelo próprio aplicativo do banco de destino, que assume a dívida remanescente e continua o desconto em folha nas novas condições. Não há taxa de portabilidade cobrada do trabalhador, por determinação do Banco Central.
O que dizem os números do mercado
De acordo com o Ministério do Trabalho, a média de crédito contratado por trabalhador é de R$ 6.781,69, com prazo médio de 19 meses. Os quatro maiores bancos por volume de carteira são Itaú (R$ 17 bilhões), Banco do Brasil (R$ 12 bilhões), Santander (R$ 7 bilhões) e Bradesco (R$ 4 bilhões). O Banco Pan aparece com R$ 8 bilhões e o C6 com R$ 6 bilhões.
Fora dos bancos tradicionais, uma fintech chama atenção. A Parati Financeira, braço da Meutudo, já tem R$ 17 bilhões em consignado privado, empatada com o Itaú como maior operadora do produto. O crescimento acelerado atraiu FIDCs, fundos de investimento em direitos creditórios, que hoje financiam boa parte das operações.
Enquanto o mercado ferve, o recado para o trabalhador segue o mesmo: crédito não é solução, é ferramenta. Bem usado, tira dívidas caras do caminho e devolve dinheiro para o mês. Mal usado, comprime o salário e transforma o FGTS em garantia de um consumo que já passou. Antes de contratar, simule pelo menos três ofertas, compare CET e cheque se a parcela realmente cabe no orçamento sem apertar as contas do fim do mês.